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Notícias

6 de Março de 2026

Documento do mês de março 2026

Dia Internacional da Mulher

Joana da Gama: escrita, emancipação e legado feminino na época Moderna

No âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher, importa sublinhar a relevância histórica e cultural da figura de Joana da Gama, cuja produção literária se inscreve num contexto profundamente marcado pela hegemonia masculina nos domínios da cultura escrita e do pensamento. Joana da Gama nasceu na vila de Viana do Alentejo, distrito de Évora no século XVI, segundo alguns autores no ano de 1520, era filha de Manuel do Casco e de Filipa Gama. Após o seu casamento, que durou apenas cerca de um ano e meio, sem descendência, mudou-se para a cidade de Évora onde conseguiu viver de forma independente, no Recolhimento do Salvador, ou Recolhimento “Salvador do Mundo”.

Joana da Gama viveu numa época que podemos situar entre meados os séculos XV e XVI, na transição da Baixa Idade Média para a Idade Moderna, época de profundas transformações. A mulher desta época era vigiada pelos pais e após o casamento devia submissão ao marido, o seu papel na sociedade era o da procriação através do contrato do casamento. Desta forma a clausura era vista como uma alternativa para escapar a esse círculo vicioso.

A liberdade para a mulher dessa época da histórica só era possível para aquelas que escolhessem a via eclesiástica. No entanto, Joana da Gama não optou por esse caminho, em vez disso criou um recolhimento e viveu nele segundo as suas próprias regras. Estavam em jogo a liberdade e a autonomia, assim como a possibilidade de ser dona de si mesma. Foi neste contexto que surgiu a primeira escritora autodidata portuguesa.

O livro que produziu Ditos da Freira, publicado cerca de 1555, sem indicação do autor, editor ou data, encontra-se dividida em duas partes, a primeira composta de aforismos e a segunda de formas diversificadas, tais como prosa, vilhancico, sonetos, cantigas, romances, sentenças e avisos. Foi a primeiro obra literária original publicada por uma mulher portuguesa e a primeira que teve um livro impresso com caracteres de imprensa. O livro teve duas edições, ambas anónimas no século XVI.

A sua obra literária pode ser entendida como um instrumento de afirmação individual e de construção de uma identidade autoral num quadro histórico adverso. A escrita surge, desta forma, como sendo um meio de libertação simbólica, permitindo-lhe transcender os papeis tradicionalmente atribuídos ao género feminino e inscrever-se na tradição literária do seu tempo.

A análise da sua obra revela não apenas o valor literário, mas também o interesse histórico, ao documentar as representações do feminino, a experiência pessoal e os modelos morais vigentes na época. Na singularidade da sua produção como autora foi considerada um símbolo feminino que conseguiu burlar o sistema de autores exclusivamente masculino da época. Neste sentido, Joana da Gama integra o conjunto de mulheres que, através da palavra escrita, contribuíram para a ampliação dos espaços de expressão feminina na cultura portuguesa.

Para além da sua obra, um outro legado deixado por Joana da Gama é o seu testamento, cuja cópia se encontra inserida num livro encadernado, com o título de “Livro de Merçearias de Joana da Gama” conservado no Arquivo Distrital de Évora e datado do ano de 1597, documento de particular relevância histórica e simbólica. Nele a testadora organiza as próprias exéquias, indica os legados que destina aos seus criados, enumera as herdades que possui, assim como as rendas a eles destinadas. Nele constitui como sua herdeira universal, sua sobrinha Isabel da Gama.

 

Fundou uma instituição que se tornará efetiva depois da morte de sua sobrinha, e lhe sobreviveu durante mais 11 anos. Após a morte de Isabel, a Santa Casa da Misericórdia após deliberações aceitou o legado de organizar as mercearias (de mercê), mandou copiar o testamento num livro que estabelecia que cada merceeira devia assinar o seu compromisso. A obrigação das merceeiras consistia em ouvir uma missa mensal que se rezava pela alma da sua benfeitora, a qual era   paga às ditas merceeiras. A Instituição funcionou ao longo de três séculos, a última merceeira foi D. Maria das Dores Ferro de Carvalho, assinada e datada de cinco de junho de 1908. A fortuna de Joana da Gama foi desta forma geridas com sabedoria. Nele se observa uma mulher consciente da sua trajetória e do valor da sua obra, preocupada em ordenar a memória da sua vida e em garantir a preservação dos seus bens materiais e espirituais.

O Testamento constitui, assim, uma extensão da sua afirmação individual, revelando autonomia de pensamento e responsabilidade patrimonial numa época em que a capacidade jurídica e social da mulher era limitada. Este documento reforça a importância de Joana da Gama enquanto sujeito histórico ativo, cuja voz se projeta não apenas na escrita literária, mas também na construção do seu próprio legado.

Joana da Gama faleceu no dia 21 de setembro de 1586, tendo o seu corpo sido enterrado na Igreja da Misericórdia de Évora como era de sua vontade. Em sua homenagem foi dado o nome de D. Joana da Gama a uma rua da vila de Viana do Alentejo.

Evocar a vida e obra de Joana da Gama no Dia Internacional da Mulher constitui, um exercício de valorização patrimonial e de reconhecimento do papel das mulheres na produção cultural, num tempo em que a sua presença nos circuitos intelectuais permanecia excecional.  

 

A Paixão corrompe o juízo, e A grande paixão tiraniza a vontade e rouba o senhorio da razão (GAMA, Joana)

 

 

Fonte consultada: Livro de Mercearias de Joana da Gama: PT- ADEVR-MIS-SCMEVR/D/003-005/0013

Biografia consultada: DA SILVA, Fábio Mário (2013) “Joana da Gama, uma estratagista das Letras Portuguesas do sec. (XVI). Revista Odisseia nº 11/2023 (consulta on line).

 

 

Esta notícia foi publicada em 6 de Março de 2026 e foi arquivada em: Documento do mês, Documento em destaque.